Como fazer amigos depois de adulto: a conta de horas que ninguém te conta
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Como fazer amigos depois de adulto: a conta de horas que ninguém te conta

Depois da escola e da faculdade, amizade para de acontecer por acaso. Um estudo da Universidade do Kansas estimou quantas horas juntos viram amizade, e outros dois explicam por que a gente desiste cedo demais. O que eu faria pra recomeçar.

Em junho do ano passado, a Organização Mundial da Saúde publicou o relatório da sua Comissão de Conexão Social com dois números que não saem da minha cabeça: 1 em cada 6 pessoas no mundo sente solidão, e ela está ligada a cerca de 871 mil mortes por ano, umas 100 por hora (OMS). Nesta semana, a gente mostrou aqui um estudo com 277 mil adultos em que homens solitários e isolados perderam quase 6 anos livres de depressão e ansiedade, e sono e exercício não compensaram a solidão.

Ler isso é fácil. Difícil é o passo seguinte, porque depois dos 25 quase ninguém sabe como fazer amigos novos. Na escola e na faculdade a amizade acontecia sozinha. Depois, ela para de acontecer por acaso.

Por que era fácil antes

Em 2012, o New York Times ouviu a socióloga Rebecca G. Adams sobre isso, e ela resumiu o que a pesquisa sobre amizade apontava desde os anos 1950. Três condições ajudam a formar amigos próximos: estar perto, ter encontros repetidos e não planejados e estar num ambiente que deixa as pessoas baixarem a guarda e se abrirem (NYT).

A faculdade entrega as três de graça. Você vê as mesmas pessoas todo dia, sem marcar nada, num lugar onde todo mundo está meio perdido. Na vida adulta, o trabalho até dá a proximidade, mas o resto da agenda vira compromisso marcado com quem você já conhece. Ninguém novo entra.

A conta das horas

O número que mudou meu jeito de pensar nisso veio de Jeffrey Hall, professor da Universidade do Kansas. Em 2018, ele publicou no Journal of Social and Personal Relationships dois estudos sobre quanto tempo junto vira amizade. Um ouviu 355 adultos que tinham se mudado de cidade nos seis meses anteriores, e o outro acompanhou 112 calouros nas primeiras semanas de faculdade.

A estimativa que ficou conhecida é esta: umas 50 horas juntos pra passar de conhecido a amigo casual, umas 90 pra virar amigo de fato e mais de 200 pra chegar a amigo próximo (KU News, artigo). Hall também viu que o tipo de tempo importa. Contam as horas de bobeira juntos, piada, videogame e coisas do tipo. Hora trabalhando lado a lado pesa bem menos.

Faça a conta com um encontro de duas horas por mês. Pra chegar nas 50 horas, são uns dois anos. Com uma noite de três horas por semana, você chega lá em uns quatro meses. É por isso que o “vamos marcar alguma coisa” que nunca se repete quase nunca vira nada.

Por que a gente desiste cedo

Dois estudos ajudam a explicar o que trava no meio do caminho.

O primeiro é o chamado “liking gap”. Em experimentos publicados na Psychological Science em 2018, Erica Boothby e colegas viram que, depois de uma conversa, as pessoas subestimam o quanto o outro gostou delas e da companhia (APS). Você sai da conversa achando que foi chato, o outro sai achando que foi legal, e ninguém chama ninguém de novo.

O segundo é de Peggy Liu e colegas, no Journal of Personality and Social Psychology em 2022. Em 13 experimentos com quase 6 mil pessoas, quem mandava uma mensagem ou ligava sem motivo subestimava o quanto quem recebia valorizava isso, e a diferença era maior quando o contato era inesperado e a relação mais fraca (APA). A mensagem que você deixa de mandar por achar que vai incomodar é justamente a que o outro mais gostaria de receber.

O que a galera diz

Quando alguém pergunta no r/boardgames como fez amigos no hobby depois de adulto, as respostas se repetem: noite de jogo em loja ou café, frequentar o mesmo grupo várias vezes, puxar conversa antes e depois da partida e, com o tempo, chamar os frequentes pra jogar em casa. Quase ninguém conta de amizade que saiu do primeiro encontro. Nas respostas, ela aparece depois de várias idas ao mesmo lugar.

Isso bate com as três condições da Adams e com as horas do Hall. O grupo fixo dá a repetição sem precisar marcar, e o jogo dá o assunto e baixa a guarda.

O que eu faria pra recomeçar

  1. Escolha um encontro recorrente, não um evento. Mesa de RPG semanal, noite de board game na loja do bairro, clube do livro, grupo de corrida. O que importa é ter dia e hora fixos com as mesmas pessoas. Se você já tem um hobby geek que leva a sério, comece por ele.
  2. Dê seis encontros antes de julgar. Com o liking gap, a sua impressão da primeira conversa provavelmente está pior do que a realidade.
  3. Chegue cedo e saia um pouco depois. A conversa fora da partida é onde a pessoa deixa de ser “o cara do grupo” e vira alguém com nome e história.
  4. Faça um convite pequeno pra fora do grupo. Um café, um jogo em casa, ir junto num lançamento. O próprio Hall dá esse conselho: você não obriga ninguém a passar tempo com você, mas pode convidar, e mudar o contexto sinaliza que quer amizade. Convite pequeno é fácil de aceitar e fácil de recusar sem climão.
  5. Mande a mensagem sem motivo. “Lembrei de você vendo isso” basta. O estudo da Liu diz que ela vale mais do que você acha.
  6. Se não der pra responder, avise. Sumir dói mais em quem some do que parece, como mostrou o estudo sobre ghosting que contamos aqui, e uma frase curta resolve.

O que não fazer

Não trate a amizade como projeto com meta. Ir a um evento por mês esperando sair com um melhor amigo em seis meses só gera frustração, porque a conta do Hall não fecha. Também não vale encher a agenda de grupos diferentes. Uma mesa que você frequenta toda semana rende mais do que cinco eventos soltos, pelo mesmo motivo que faz um hobby levado a sério render mais do que dez hobbies rasos.

E se a solidão já está pesando no humor, no sono ou na vontade de sair de casa, procure ajuda profissional. A revisão da UCL que mostramos aqui ligou a solidão a uma pior evolução da depressão, e um grupo de RPG não substitui terapia.

Minha opinião

Eu acho que o maior erro é esperar que amizade adulta aconteça do jeito que acontecia aos 17. Ela não vai aparecer sozinha, porque a vida adulta tirou a repetição e o tempo livre que faziam esse trabalho por você.

A boa notícia é que as duas coisas dá pra criar de propósito. Uma noite fixa por semana, as mesmas caras e um pouco de paciência pra passar das primeiras conversas desconfortáveis. Em alguns meses, a conta das horas começa a fechar.

Imagem: grupo de amigos numa sessão de RPG de mesa, foto de Diacritica, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

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