A IA prometeu menos trabalho. Por que você trabalha mais?
Um diretor de tecnologia mediu o próprio GitHub e descobriu que, com IA, nunca trabalhou tanto. O texto dele bombou no Hacker News e bate com um estudo de Berkeley sobre como a IA intensifica o trabalho. Veja o que os dados mostram e o que dá pra fazer pra não se esgotar.
Orestis Ioannou, diretor de tecnologia da Bold.org, resolveu olhar pro próprio gráfico de contribuições do GitHub e não gostou do que viu. Até 27 de outubro, ele já tinha 2.102 contribuições em 2026, mais do que em qualquer ano inteiro desde 2021. O texto em que ele conta isso, com o título “A IA prometeu menos trabalho. Nunca trabalhei tanto”, foi parar no topo do Hacker News e virou um dos assuntos da semana entre quem trabalha com tecnologia.
A conclusão dele é desconfortável e muita gente se reconheceu: conseguir fazer mais vira, quase sem perceber, fazer mais. E ele termina dizendo que está cansado. Se você já sentiu que a IA mexe até com a sua persistência, este texto é o outro lado da mesma moeda.
O que os números dele mostram
Ioannou não ficou só na impressão. Ele puxou os dados e comparou com os anos anteriores:
- agosto de 2026 teve 427 contribuições, o recorde dele. O maior mês antes disso tinha sido abril de 2020, com 319, no começo da pandemia;
- num dia útil típico, ele saiu de 3 ou 4 contribuições pra 7;
- em 2026 só houve 18 dias úteis sem nenhuma atividade. Nos anos anteriores eram de 40 a 46;
- foram 16 dias com 24 contribuições ou mais. Antes, isso acontecia uma vez por ano.
O que mais chama atenção é o padrão. Ele identificou três ciclos ao longo do ano em que a produção explodia por semanas e depois despencava, com ele esgotado. Na leitura dele, a IA sumiu com o atrito que antes funcionava como freio, e as horas que deveriam sobrar foram preenchidas com mais tarefas.
Um estudo de Berkeley já tinha visto isso
O relato dele bate com uma pesquisa publicada em fevereiro na Harvard Business Review por Xingqi Maggie Ye e Aruna Ranganathan, da escola de negócios Haas, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Elas acompanharam por oito meses uma empresa de tecnologia americana com cerca de 200 funcionários e fizeram mais de 40 entrevistas.
A conclusão foi que a IA intensifica o trabalho de três jeitos. O escopo de cada pessoa cresce, porque agora dá pra assumir tarefas que antes iam pra outro time. O trabalho invade as pausas, já que mandar um prompt rápido no almoço parece inofensivo. E as pessoas passam a tocar muitas frentes ao mesmo tempo, cada uma com um agente rodando. As pesquisadoras descrevem um ciclo: a ferramenta aumenta a capacidade, a entrega cresce, e a expectativa da empresa sobe junto, o que torna difícil voltar pro ritmo antigo.

O que a galera respondeu
A discussão no Hacker News chegou a 675 pontos e 658 comentários. O comentário mais votado, do usuário ak39, começa dizendo que se identificou 100% e também está cansado, e propõe uma rotina. Fazer o próprio plano do dia, com papel e caneta, antes de abrir a IA. Limitar o escopo ao que está na lista. E cortar as missões paralelas, que segundo ele são o que mais está matando a gente. Nos dias em que seguiu a lista, ele conta que fechou o computador cedo e foi ficar com a família.
Outros foram por caminhos diferentes. Um usuário argumentou que a IA desvalorizou o trabalho chato, já que hoje dá pra entregar 80% da qualidade em 1% do tempo, e quem não acompanha parece lento. Outro foi mais direto: nenhum empregador vai pagar o mesmo salário por menos trabalho, então o ganho de produtividade sempre volta como mais demanda. Também teve quem defendesse o lado bom, dizendo que a IA tirou a parte mais mecânica e deixou mais tempo pra parte divertida. E um comentário que muita gente endossou resume o meio-termo: ele produz mais, mas precisa de bem mais tempo pra recarregar depois.
Como não cair nesse ciclo
As pesquisadoras de Berkeley chamam a saída de “prática de IA”, um conjunto de hábitos combinados pra usar a ferramenta sem deixar que ela dite o ritmo. Dá pra adaptar pra rotina de quase qualquer pessoa:
- Pausas de verdade. Almoço é almoço, sem “só um prompt”. Se a ideia surgir, anota num papel e volta depois.
- Uma frente por vez. Em vez de abrir cinco conversas com cinco agentes, agrupe tarefas parecidas e faça em sequência.
- Janelas de foco protegidas. Reserve blocos no calendário sem notificação e sem IA, pra pensar no problema antes de pedir solução.
- Lista com fim. Defina de manhã o que conta como dia terminado. Quando acabar, acabou, mesmo que a IA deixe fazer mais.
- Gente de verdade. Conversar com colega sobre o trabalho, e não só com o chatbot, ajuda a calibrar o que é expectativa razoável.
Se ficar difícil manter o foco sozinho, o body doubling funciona bem pra esse tipo de bloco. E vale lembrar que deixar a cabeça vagar sem celular também é parte do trabalho, porque é aí que muita ideia boa aparece.
Isso vale pra quem não é programador?
Vale. O gráfico do GitHub é só a forma que o Ioannou achou de medir, mas o mesmo acontece com quem usa IA pra escrever relatório, montar planilha ou responder cliente. Se a sua lista de tarefas cresceu desde que você começou a usar o ChatGPT ou o Claude no trabalho, é bem provável que você esteja no mesmo ciclo. Um sinal de alerta é o cansaço que não passa no fim de semana, parecido com o que a gente descreveu no texto sobre fadiga de redes sociais. Se ele durar semanas, procure um profissional de saúde.
E você, sente que está trabalhando mais desde que começou a usar IA? Conta nos comentários o que mudou na sua rotina e se algum hábito te ajudou a frear.
Imagem de capa: gráfico de contribuições de Orestis Ioannou no GitHub, via oioannou.com
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