Inflação estourou a meta: a conta de luz pesou
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Inflação estourou a meta: a conta de luz pesou

IBGE (09/10): IPCA de setembro sobe 0,82%, acima do esperado, com fim do Bônus de Itaipu na luz. Inflação em 12 meses vai a 4,58%, acima do teto.

Se a sua conta de luz de setembro pareceu mais salgada, não foi impressão. O IPCA de setembro subiu 0,82%, puxado pela energia elétrica, e a inflação em 12 meses voltou a passar do teto da meta do governo.

Os números foram divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira, 9 de outubro, e estão na reportagem da Agência Brasil (09/10/2026) e no g1 (09/10/2026). É o maior resultado mensal desde março deste ano, quando o índice marcou 0,88%.

Os números principais

Em agosto, o IPCA tinha registrado deflação de 0,32%, e o acumulado de 12 meses estava em 4,22%. Com o salto de setembro, o acumulado foi para 4,58%. A meta definida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo, ou seja, o intervalo aceito vai de 1,5% a 4,5%. Setembro ficou acima disso.

No ano, a inflação acumula 3,95%. O resultado também veio acima do que o mercado esperava: o boletim Focus da segunda-feira, dia 5, projetava 0,60% para setembro. Para o fim de 2026, a projeção do mercado no mesmo boletim era de 5,01%.

Vale entender a regra atual. Desde 2025, a meta é avaliada pelos 12 meses imediatamente anteriores, e não só pelo resultado de dezembro. Ela é considerada descumprida se a inflação ficar fora do intervalo por seis meses seguidos. A última vez que o acumulado tinha passado do teto foi em junho, com 4,64%, e depois voltou para dentro da faixa. Então, por enquanto, não há descumprimento formal, mas o sinal amarelo acendeu de novo.

A conta de luz explica quase tudo

O grupo que mais pesou foi habitação, com alta de 2,31%. Dentro dele, a energia elétrica subiu 7,98% e foi, sozinha, o item com maior impacto no índice do mês: 0,32 ponto percentual. Em agosto, a luz tinha caído 7,63%.

A explicação é o Bônus de Itaipu. Em agosto, os consumidores receberam um desconto na conta, que vem da distribuição do saldo positivo da conta de comercialização da hidrelétrica de Itaipu. Em setembro, o desconto acabou. Quando o IBGE compara a conta “normal” de setembro com a conta mais barata de agosto, a diferença parece enorme. O efeito já era esperado por analistas e pelo próprio IBGE. O analista Fernando Gonçalves, do instituto, lembrou que em setembro do ano passado houve algo parecido, com habitação subindo 2,97%.

Também houve reajuste contratual na conta de luz em Belém, São Luís e Vitória, o que influencia a média nacional. Para outubro, há um respiro previsto: a bandeira tarifária será verde, sem cobrança extra.

Comida e transporte também subiram

Depois de três meses seguidos de queda, alimentação e bebidas subiram 0,83%. A comida em casa ficou 0,96% mais cara. Os vilões foram o tomate, com alta de 37,76%, a batata-inglesa, com 24,07%, a cebola, com 10,14%, e o arroz, com 4,56%. Do outro lado, o frango inteiro caiu 1,96% e as frutas, 1,12%.

Segundo o IBGE, a culpa é da oferta. Frio e chuva atrapalharam a produção: o tomate demora mais a amadurecer, a chuva prejudicou o plantio de batata e a cebola fica úmida e de pior qualidade. O analista não cravou se isso já é efeito do El Niño.

Transportes subiram 0,89%, com as passagens aéreas disparando 9,66% e os combustíveis 1,41% mais caros. Gasolina subiu 1,21%, etanol 3,16% e diesel 1,69%.

Um dado que eu acho mais revelador que o número cheio é o índice de difusão: 55% dos 377 produtos e serviços pesquisados ficaram mais caros, contra 54% no mês anterior. Ou seja, a alta não ficou só na luz. Serviços, que são mais sensíveis à Selic, subiram 0,61% no mês e acumulam 5,98% em 12 meses.

O que isso muda no seu bolso

Primeiro, sem pânico. Boa parte do salto de setembro é efeito pontual da luz. O economista Roberto Luis Troster, da Fipe, ouvido pela Agência Brasil, chamou de “efeito pontual, com influência limitada sobre o próximo mês”. Com a bandeira verde em outubro, a conta de luz deve dar uma trégua.

Mas eu não deixaria o número passar batido. Se você usou a conta mais barata de agosto como base para o orçamento, ajuste agora, porque o desconto do bônus não volta. No mercado, tomate, batata e cebola subiram por causa do clima, e esse tipo de alta costuma oscilar bastante de um mês para outro. Trocar por itens que caíram, como frango e frutas, ajuda sem esforço nenhum.

O ponto que mais gente esquece é o rendimento real. Com a inflação de 12 meses em 4,58%, qualquer aplicação que rende menos que isso está, na prática, fazendo você perder poder de compra. Não precisa virar especialista para checar: compare o rendimento anual da sua aplicação com o IPCA de 12 meses. Se o primeiro número for menor, o dinheiro está encolhendo parado.

O que vem pela frente

A expectativa do mercado de 5,01% para o ano, registrada no Focus antes do dado de setembro, já estava acima do teto da meta. Um mês acima do previsto não muda tudo, mas dificulta a vida de quem esperava a inflação voltando para o intervalo até dezembro.

O próximo boletim Focus deve mostrar como o mercado reagiu ao número. Até lá, a minha leitura é simples: setembro foi pior que o esperado por motivos em boa parte conhecidos, e outubro tem chance de ser mais leve na conta de luz. A comida é que pode continuar pesando, a depender do clima.

Quanto foi o IPCA de setembro de 2026?

O IPCA subiu 0,82% em setembro, segundo o IBGE.

Qual é a inflação acumulada em 12 meses?

4,58%, acima do teto da meta, que é de 4,5%.

Por que a conta de luz subiu tanto?

Por causa do fim do Bônus de Itaipu, um desconto aplicado nas contas de agosto. Sem ele, a energia subiu 7,98% em setembro.

A meta de inflação foi descumprida?

Não formalmente. A meta só é considerada descumprida quando a inflação fica fora do intervalo por seis meses seguidos.

Imagem de capa: Usina Itaipu Binacional, Foz do Iguaçu (PR), 13/04/2026. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

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