Lei nos EUA quer que jogo comprado seja seu de verdade
O deputado americano Ritchie Torres anunciou o Power To The Players Act: comprar jogo daria posse, não licença, e jogo online teria que ganhar modo offline antes de desligar servidor. Ainda não há texto nem número do projeto.
Você pagou preço cheio num jogo e, dois anos depois, ele some da loja e para de funcionar porque a empresa desligou o servidor. Um deputado americano quer transformar isso em ilegal: o Power To The Players Act propõe que comprar um jogo dê posse de verdade, não uma licença que pode ser revogada.
O anúncio veio na quinta (15) e virou um dos assuntos mais comentados da semana entre quem joga no PC e no console, com mais de 290 pontos no Hacker News. Só que tem um porém grande: o projeto ainda não existe no papel.
O que o Power To The Players Act propõe
O deputado democrata Ritchie Torres, que representa o 15º distrito de Nova York, no Bronx, anunciou que vai apresentar o projeto na Câmara dos EUA. A ideia é mandar a FTC, a agência federal de defesa do consumidor, criar regras que protejam a capacidade de possuir e jogar os games comprados. São três pilares:
- Posse em vez de licença: comprar um jogo daria ao consumidor a propriedade do jogo, não uma permissão de uso.
- Modo offline antes do fim: jogos com funções online teriam que oferecer um modo offline antes que os servidores sejam desligados.
- Revenda: o comprador manteria o direito de transferir ou revender o que comprou.
Na nota oficial, Torres resume assim: “Quando você paga por um jogo, deveria ser dono dele. Um jogo que pode ser tirado no momento em que a empresa puxa a tomada não é uma compra. É um aluguel disfarçado de venda.” Em entrevista ao Kotaku, citada pela Ars Technica, ele chamou a proposta de “restauração da norma histórica”, lembrando a época do cartucho e do disco.
O exemplo escolhido: NBA 2K25
O anúncio cita NBA 2K25 como caso concreto. O jogo custava US$ 69,99 na edição padrão e US$ 99,99 na All-Star, vai sair das lojas digitais em 30 de outubro e terá os servidores online desligados em 31 de dezembro, cerca de dois anos depois do lançamento. Quem comprou perde o modo que, pra muita gente, era o jogo inteiro.
Não é caso isolado. O Tom’s Hardware lembra The Crew, que a Ubisoft desligou em 2024 e ficou injogável até pra quem tinha comprado havia pouco, já que até a campanha dependia do servidor. Foi esse caso que deu origem ao movimento Stop Killing Games, que pede modo offline, patch pra jogo ponto a ponto ou servidor da comunidade quando o suporte acaba.
O que ainda falta (e é muita coisa)
Até agora há só o anúncio. Não existe texto público, número de projeto nem lista de coautores. A Ars Technica destaca que, sem o texto, não dá pra avaliar se a regra seria aplicável, e que a maioria dos projetos de lei nem chega a votação.
Há também a parte técnica. Alguns jogos online são construídos de um jeito que transformar em offline exigiria refazer a arquitetura, segundo a Ars. E o PC Gamer lembra que a FTC dificilmente vai mandar acabar com proteção contra cópia, então a definição de “posse” que sair daí tende a ser mais branda que a de um jogo sem DRM comprado no GOG.
Torres também não está sozinho. Na Pensilvânia, o senador estadual John Kane apresentou o Protect Our Games Act, que exige modo offline, servidores da comunidade ou reembolso mínimo de 25%. A diferença é que a proposta de Torres seria federal.
O que a galera está dizendo
No Hacker News, o comentário mais votado corrige a manchete que circulou: não é uma lei de Nova York, é um projeto nacional apresentado por um deputado de Nova York. Outro usuário foi mais duro e lembrou que “anunciar que vai apresentar” não é apresentar, e que fazer barulho sem mostrar o texto é jogada de campanha. Teve quem puxasse a discussão pra outro lado: o maior prejuízo da era digital, pra esse leitor, foi o fim do mercado de usados, que deixava jogar gastando pouco.
No fórum do Tom’s Hardware, a reação mais curta resume o ceticismo: “primeiro, defina posse”. Outros leitores temem que as publishers respondam empurrando tudo pra free-to-play com mais microtransação, já que não dá pra exigir posse do que você não comprou.
Por que isso importa pra quem joga no Brasil
A lei, se sair, vale nos EUA. Mas as lojas são as mesmas: PlayStation Store, Xbox, Steam e Nintendo eShop vendem pra cá com termos parecidos. E a tendência que preocupa é global. A Sony informou que downloads digitais responderam por 82% das unidades de jogos completos vendidas no PS4 e no PS5 no ano fiscal coberto pelo relatório, conforme a Ars. Por aqui, a gente já viu a discussão sobre mídia física da Nintendo na América Latina e sobre como a comunidade mantém jogo vivo por conta própria, com decompilação e portes feitos com IA, o porte nativo de Uncharted no PC e o PS5SX2 rodando disco de PS2.
Na prática, enquanto nada muda, vale o de sempre: antes de comprar jogo com forte dependência online, veja se tem campanha offline, pesquise o histórico da publisher com desligamento de servidor e, quando der, prefira versões sem DRM ou mídia física que rode sem servidor.
A opinião do NM
A proposta acerta no alvo. Vender por preço cheio algo que pode virar pó por decisão unilateral da empresa é um problema real, e NBA 2K25 com dois anos de vida é um exemplo difícil de defender. O modo offline antes de desligar servidor é a parte mais sensata, porque não obriga ninguém a manter infraestrutura pra sempre.
Mas eu seguro a empolgação até ver o texto. Um anúncio sem número de projeto, feito por um deputado em campanha pela reeleição, pode acabar só como bandeira. Se o texto vier com definição clara de posse e prazo pra modo offline, vira precedente que ninguém no setor vai poder ignorar. Se não vier, fica como mais um sinal de que o Stop Killing Games saiu do fórum e chegou ao Congresso americano, o que já é alguma coisa.
Imagem: foto oficial do deputado Ritchie Torres, Câmara dos Representantes dos EUA, via PC Gamer
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