TDAH sem diagnóstico: os jovens que ninguém percebe
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TDAH sem diagnóstico: os jovens que ninguém percebe

Jovens que se identificam com TDAH sem diagnóstico, muitas vezes meninas boazinhas na escola, passam anos sem ajuda. O que o estudo ouviu deles.

“Talvez existam pessoas que voam um pouco abaixo do radar. E talvez eu seja uma delas.” A frase é de uma das 15 jovens suecas entrevistadas num estudo publicado nesta segunda (05/10) sobre TDAH autodiagnosticado, e resume bem um fenômeno que todo mundo vê nas redes e quase ninguém tinha estudado direito.

A pesquisa saiu na BMC Psychology (05/10/2026), assinada por Matilda A. Frick, Cecilia Cederlid e Linn Hegdal, do Departamento de Psicologia da Universidade de Estocolmo, e por Jan Grimell, da Universidade de Umeå. O título já é a citação: “Flying under the radar”, voando abaixo do radar.

O que o estudo fez

É um estudo qualitativo, ou seja, não mede quantas pessoas se autodiagnosticam. Ele tenta entender por que e como isso acontece. As pesquisadoras recrutaram, por anúncios no Facebook e no Instagram em janeiro e fevereiro de 2025, mulheres de 18 a 25 anos da região de Estocolmo que se identificavam com TDAH sem diagnóstico formal havia pelo menos um ano.

Os critérios foram rígidos. Todas precisavam ter pontuação acima do ponto de corte para provável TDAH numa escala de autoavaliação (a ASRS). Ficaram de fora quem já tinha diagnóstico, quem já tinha passado por avaliação ou estava na fila, quem tinha diagnóstico de autismo, depressão grave ou uso de risco de álcool e drogas. Das 55 interessadas, 15 participaram. Em média, elas se consideravam com TDAH havia seis anos. Nenhuma recebia tratamento.

As entrevistas, de cerca de uma hora cada, foram analisadas por temas. Saíram seis.

Os seis temas

Três falam de como elas descrevem o TDAH que acreditam ter: o reconhecimento nos sintomas, a sensação de invisibilidade e de lutar sozinha, e a ambivalência em relação a fazer uma avaliação formal. Os outros três falam de como elas se veem: lidar com cobranças e expectativas, dificuldades com papéis sociais e relacionamentos, e o sentimento de ser diferente e buscar aceitação.

Os relatos são muito concretos. Uma participante diz que senta para estudar, passa uns quinze minutos e já está no celular. Outra conta que começa a limpar a casa e não termina porque vive achando outra coisa para fazer. Uma descreve o próprio cérebro como “sempre funcionando em velocidade máxima”. Outra conta que passa o dia inteiro fazendo um cesto de roupa de crochê e esquece de comer, o famoso hiperfoco.

A “boa menina” que mascara

O achado que mais chama atenção é o papel da expectativa de ser “boa menina”. Quase todas tiravam boas notas na escola, eram quietas, não davam trabalho. Uma delas conta que a dificuldade de concentração não era levada a sério porque ela não dava trabalho, e que acabou sentada entre os meninos bagunceiros, sem conseguir focar. Outra diz que parecia tranquila, mas que “por dentro estava gritando”.

Algumas ouviram de pais ou de profissionais de saúde que não podiam ter TDAH porque iam bem demais na escola. O estudo descreve estratégias de compensação pesadas: listas detalhadas, rotina planejada até o tempo de deslocamento, observar os outros para saber como agir socialmente. Funcionava, mas custava caro. Uma participante bloqueava o fim de semana inteiro para se recuperar depois de uma semana de provas.

A virada costumava vir com o aumento da cobrança, na passagem para o ensino médio ou para a faculdade. Uma das jovens chama a mudança de “crise de identidade”: continuou com notas boas, só que não tão boas quanto antes, e isso abalou a imagem que tinha de si.

Por que não buscam diagnóstico

Aqui entra a ambivalência. As participantes listam o que ganhariam com um diagnóstico: ferramentas concretas e mais compreensão de família e amigos. Uma diz que seria bom ter no papel que ela “não é só burra”. Mas os motivos para não ir atrás são vários: fila longa, custo, medo do estigma, medo de um rótulo atrapalhar a carreira e, principalmente, medo de não “ter o suficiente” para o diagnóstico.

Tem um detalhe quase irônico. Uma participante recebeu um link para agendar a avaliação anos atrás. Está no e-mail até hoje. Ela diz que vive deixando para amanhã há cinco anos. Procrastinar a avaliação de TDAH é, de certa forma, o próprio sintoma em ação.

Validação, mas com cuidado

A conclusão das autoras é equilibrada, e é isso que torna o estudo bom. Por um lado, o autodiagnóstico teve papel importante na construção da identidade dessas jovens: validou experiências difíceis e ajudou a trocar a ideia de “defeito pessoal” por “um jeito diferente de funcionar”. Por outro, as pesquisadoras alertam para a medicalização, a tendência de interpretar como problema médico experiências que podem ter outra origem, como ansiedade, depressão, dificuldades de aprendizagem ou simplesmente a pressão social sobre o que é ser uma mulher bem-sucedida.

Elas também apontam limites claros. A amostra era de mulheres com alto desempenho, recrutadas pelas redes, o que pode não representar quem se autodiagnostica e tem dificuldades maiores. E todas tinham sintomas acima do ponto de corte, o que indica nível clínico, mas não substitui avaliação.

O que eu tiro disso

Como estudante de psicologia, eu acho esse estudo útil justamente porque não cai em nenhum dos dois discursos fáceis. Não trata autodiagnóstico como modinha de TikTok, e também não trata como verdade absoluta. Mostra que, para essas mulheres, se reconhecer no TDAH foi uma forma de entender anos de esforço invisível, e que o sistema que deveria ter percebido isso na escola falhou.

Ao mesmo tempo, o estudo lembra que só a avaliação formal abre a porta para o tratamento, inclusive o medicamentoso. Se você se identificou com os relatos, o passo útil não é decidir sozinha, nem descartar. É procurar avaliação com psicólogo ou psiquiatra e levar justamente esse tipo de história: o esforço que você faz para parecer que está tudo bem conta, e deveria entrar na conversa.

O que o estudo sobre TDAH autodiagnosticado descobriu?

Que, para mulheres jovens, o autodiagnóstico ajuda a validar dificuldades que passaram despercebidas, muitas vezes mascaradas por bom desempenho escolar, mas que há risco de medicalização.

Quantas pessoas participaram?

Quinze mulheres de 18 a 25 anos da região de Estocolmo, entrevistadas em 2025.

Autodiagnóstico substitui avaliação?

Não. O próprio estudo lembra que o diagnóstico formal é o caminho para acessar tratamento.

Imagem de capa: pintura fotografada numa estação de metrô de Estocolmo, por S1raw(berry)man, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

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