IPO da Anthropic: dá pra comprar ações do Brasil?
A Anthropic, dona do Claude, entrou com o pedido de IPO na SEC em 26 de outubro e vai negociar na Nasdaq com o código ANT. Veja o que o documento mostra, se quem está no Brasil consegue comprar, quanto custa em imposto e por que comprar no primeiro dia pode sair caro.
A Anthropic, empresa por trás do Claude, protocolou no dia 26 de outubro o pedido de abertura de capital na SEC, a CVM dos Estados Unidos. As ações vão ser negociadas na Nasdaq com o código ANT, e o assunto tomou conta de grupo de investimento, Reddit e Twitter nos últimos dias. A pergunta que mais aparece por aqui é simples: dá pra comprar do Brasil?
Dá, mas não do jeito que muita gente imagina, e o preço do primeiro dia costuma enganar. Se você está começando agora, vale ler antes nosso guia de como investir com pouco dinheiro em 2026, porque IPO de empresa de tecnologia está longe de ser o primeiro passo de alguém.
Aviso: este conteúdo é informativo e não é recomendação de investimento. Faça sua própria pesquisa antes de colocar dinheiro em qualquer coisa.
O que o documento da Anthropic mostra
O formulário S-1 é o raio-x que toda empresa precisa publicar antes de vender ações ao público nos EUA. O da Anthropic está aberto no site da SEC, sob o número de registro 333-299633, e traz dois números que explicam a confusão das manchetes.
O primeiro é a receita: US$ 16,29 bilhões no primeiro semestre de 2026, puxada pela venda de acesso ao Claude pra empresas e pela assinatura dos planos pagos. O segundo é o prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões no mesmo período. Parece absurdo, e foi isso que viralizou, só que a maior parte desse valor é um lançamento contábil que não saiu do caixa da empresa. Quem quer entender de verdade precisa ler a seção de resultados e separar o que é gasto real (computação, salários, data centers) do que é ajuste de contabilidade.
O documento ainda não traz o preço por ação nem a quantidade de papéis que vão ser vendidos. Essas informações costumam entrar numa atualização do S-1 perto da data da oferta.

Dá pra comprar ações da Anthropic do Brasil?
Pela B3, por enquanto, não. A Anthropic não tem registro na CVM e não existe BDR dela. Um BDR pode até aparecer depois, já que a B3 costuma lançar recibos de empresas americanas grandes, mas não tem data nem garantia de que vá acontecer.
O caminho que existe hoje é abrir conta numa corretora internacional que dá acesso direto à Nasdaq. Várias corretoras e bancos digitais brasileiros oferecem isso, com conta em dólar e compra de ação fracionada, o que permite comprar um pedaço de uma ação com pouco dinheiro. Pra participar da oferta em si, antes da estreia, quase sempre é preciso ser cliente de um banco que faz parte do sindicato da operação, algo raro pra pessoa física daqui. Na prática, a maioria só consegue comprar depois que o papel começar a ser negociado.
Tem também o caminho indireto. A Amazon e o Google são sócios relevantes da Anthropic, e os dois têm BDR na B3 (AMZO34 e GOGL34). Comprar esses recibos te dá uma exposição pequena e diluída à Anthropic, junto com todo o resto do negócio dessas empresas. Pra muita gente que quer participar da onda da IA sem abrir conta lá fora, isso já resolve.
Quanto custa em imposto e taxa
Mandar dinheiro pra fora tem custo antes mesmo de comprar a ação. Tem o spread do câmbio, que é a diferença entre o dólar que você paga e o dólar comercial, e tem o IOF da remessa. A alíquota muda conforme o tipo de operação, então confira com a sua corretora quanto ela cobra e qual IOF incide antes de transferir. Se você já sentiu isso numa assinatura cobrada em dólar, o mecanismo é o mesmo que explicamos no texto sobre IOF e spread no custo real.
Depois vem o Imposto de Renda. Desde a Lei 14.754, de 2023, o ganho com aplicações no exterior de pessoa física é tributado em 15% sobre o lucro do ano, apurado na declaração anual. Não tem mais aquela isenção de vendas até R$ 35 mil por mês que existe pra ações na B3. E nos EUA ainda pode ter retenção sobre dividendos, se um dia a empresa pagar.
Some tudo isso com a taxa da corretora e o custo fica bem maior do que o preço da tela. A gente sempre bate nessa tecla com custo antes de rentabilidade e ela vale de novo aqui.
Por que comprar no primeiro dia pode sair caro
Jay Ritter, professor da Universidade da Flórida que mantém há décadas uma base de dados de IPOs americanos, mostra que as ações sobem em média perto de 19% no primeiro dia de negociação desde 1980. Parece ótimo, só que essa alta acontece entre o preço da oferta e a abertura, e quem compra pela corretora no pregão já entra pagando o preço com o salto embutido. Os estudos dele também mostram que, nos anos seguintes, empresas recém-listadas costumam render menos que o mercado em geral.
Nem toda estreia segue essa média, e empresas grandes de tecnologia já foram pra todo lado depois do IPO. O ponto é que a empolgação do dia um tende a ser o pior momento pra pagar caro. Quem quer ter a ação pode esperar a poeira baixar, ler os primeiros resultados trimestrais como empresa aberta e comprar aos poucos.
Isso combina com a estratégia mais chata e eficiente que existe: um aporte mensal que leva dez minutos, com uma fatia pequena da carteira em ações individuais e o grosso em coisa diversificada.
O que a galera está dizendo
O tópico principal sobre o S-1 no Hacker News passou de 1.700 pontos e 1.600 comentários. A discussão que mais rendeu foi sobre os compromissos de compra de computação, que segundo os comentaristas somam mais de US$ 640 bilhões em contratos que vão até 2036. Uma parte acha que a demanda pelo Claude sustenta isso com folga, citando o crescimento rápido da receita. Outra parte lembra que parte desses contratos pode ser cancelada e pergunta o que acontece se o crescimento desacelerar ou se clientes migrarem pra modelos mais baratos.
Também apareceu bastante gente desconfiada de que o IPO sirva mais pra dar liquidez a quem já investiu do que pra financiar a empresa, e um comentário com muitos votos lembrou que o S-1 já nasce desatualizado, porque a receita do terceiro trimestre seria bem maior que a do segundo. Por aqui, nos grupos de investimento, a dúvida número um é a do BDR, seguida pela do imposto.
E você, colocaria dinheiro no IPO da Anthropic, esperaria uns meses ou prefere ficar de fora de IPO de tecnologia? Conta nos comentários como está pensando.
Imagem de capa: Dario Amodei no TechCrunch Disrupt 2023. Foto: TechCrunch, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
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